segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Desabafos

Minha cabeça está fervendo de tantos pensamentos e eu preciso descarregar tudo aqui. Na semana que se passou, muitos foram os acontecimentos que me fizeram parar e queimar meus neurônios.
São três assuntos que comentarei aqui: o do menino Kaique, os rolezinhos e o programa da Fátima Bernardes.

Vamos lá.

Morte de jovem gay é registrada como suicídio; família contesta
Esse foi o título da matéria do Portal G1. O texto começa assim: "Um adolescente gay foi encontrado morto no sábado (11) sob o Viaduto Nove de Julho, no Centro de São Paulo. Inicialmente, a Polícia Civil investiga o caso como suicídio."

Ok. Primeiro. O fato dele ser gay, levantou a hipótese de ter sido um crime homofóbico. Triste é o mundo em que as pessoas são mortas por serem gays, negras, por não terem dinheiro na carteira ou por defenderem seu filho de um assalto. Entenderam? Parece que hoje a vida não vale nada, independente de quem você seja, você morreria por menos de um real.
Segundo ponto: a polícia registrou o caso como suicídio e aqui eu uso um trecho de um texto que recomendo. "Não há, neste momento, como afirmar se Kaique foi assassinado ou se suicidou. Para afirmar, tanto um homicídio quanto um suicídio, é preciso uma investigação. E séria. Há suicídios que, pelas circunstâncias e pelas evidências, são facilmente comprováveis. Não parece ser o caso de Kaique. A questão que se impõe é: por que foi registrada como suicídio uma morte que até hoje, mais de uma semana depois, não foi esclarecida?" (trecho do texto Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um).
Terceiro: que diferença faz se ele é gay ou não? Gente, pelo amor. Ele é um adolescente e, independente de ser gay, hétero, branco, preto, chinês, gordo, magro e etc, ele deveria estar transbordando vida.

Agora sobre os rolezinhos, que ainda ocupam um bom espaço nas redes sociais.
Eu poderia escrever uma monografia sobre o rolezinho e seus efeitos econômico, social e psicológico. Mas prefiro ser curta e grossa.
Juntou uma galera num shopping, pra andar, olhas as lojas, flertar, mas um pessoal mal intencionado resolveu causar e tumultuou o rolê.
Pronto. Agora foi arrumada uma desculpa para que pobre não entre nos shoppings "bem frequentados".
Bom... o que parece é que pobre não pode ir a shopping. Pobre não pode usar roupa de marca. Pobre não pode se misturar aos ricos. Pobre só é legal no seu habitat natural, fora de shoppings caros.
"Mas Jéssica, ninguém falou de pobre. São um bando de funkeiros que se aglomeram nos shoppings e causam medo nas pessoas"
Oi? Aposto que se fossem 500 mulheres com roupas de marca gritando pelo shopping, as lojas não fechariam e as pessoas ainda parariam para olhar. Mas como são jovens que buscam diversão, então não é legal.

Encontro com Fátima Bernardes. Adoro esse programa. Sério. Assisto todos os dias.
Teve um específico que causou um certo alvoroço. (veja aqui)
Psicanalista Francisco Daudt: "Se você está vestida pra matar e vai para um bar e senta e toma um chopinho e passa o radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta social de que você está disponível" (...) "A mulher que está sozinha por exemplo é frequentemente uma garota de programa que está em busca de companhia"
WHAT????? Mas eu ando sozinha e não sou puta!!! Que absurdo isso!!!
Então a atriz Sophie Charlotte diz: "acho que a gente tem de quebrar esse tipo de pensamento até em cima da beleza feminina. Acho que as mulheres bonitas que se vestem de uma maneira às vezes mais sensual, elas pagam um preço diferente pela própria beleza e pela própria juventude"
Exatamente. É o pensamento geral. O mundo é repleto de preconceitos. E se sentir ofendida por ser confundida com uma prostituta não é preconceito??

"Legal, Jéssica. Mas por que escreveu esse texto?" Simples. Precisava escrever tudo o que estava na minha cabeça. Isso me ajuda a refletir. Se você me perguntar o que esses três assuntos têm em comum, eu te digo: falta de amor. "Aff... isso é frescura, mimimi". Ah é? No geral, o que eu vejo é que as pessoas são ávidas por transformações. Querem um mundo sem preconceito, um mundo bonito, com mais amor, menos corrupção, mas querem isso pra ontem, de uma hora para a outra. As mudanças são lentas, aos poucos, mas ninguém está disposto a se modificar. Quando digo amor, não estou querendo dizer pra você beijar todos que passarem na sua frente. Quando eu digo amor, quero dizer respeito, tolerância, compreensão, empatia. Quem está disposto a não empurrar o outro no trem para tentar ir sentado até a próxima estação? Quem avisa o cobrador do ônibus que ele deu troco a mais? Quem está disposto a perdoar o erro de outro? Quem aceita a derrota do seu time de futebol sem agredir o do time vencedor? Quem tem tempo para ajudar alguém sem pedir algo em troca?  Amar é parar de olhar para uma prostituta como se ela fosse inferior, parar de olhar um funkeiro como se ele fosse um ser asqueroso, é poder se manifestar sem ser agredido, é falar, ouvir, ser ouvido, é parar de justificar a violência, é parar a violência.
São coisas simples, não? Mas quem faz? É clichê, mas é uma verdade: "Você precisa ser a mudança que quer ver no mundo". Sei que amanhã o mundo não estará melhor, que as pessoas não mudarão de uma hora para a outra. Mas uma caminhada longa começa com o primeiro passo.